“Nessas questões de barrancos, a farinha da casa

vale mais do que o maná que vem de fora”

 

Por Thomaz Antonio Barbosa

 

Quatro anos é muito tempo para um país que gosta de festa. Entre as nossas prediletas está a marcha do pleito. A eleição suplementar para o cargo de governador no Amazonas é mais do que um dever cívico, é também uma pausa no cotidiano monótono de quem já está cansado de ouvir falar em crise, corrupção e incompetência.

Então, vamos transformar tudo isso em um grande festejo e nos divertir com nosso destino.

Aproveitar que agosto é o mês do cachorro louco e vamos às urnas cometer a loucura de escolher alguém para assumir o mandato tampão, o indivíduo que vai tocar o enredo até a apoteose no ano de 2018.

Eleição fora de época é nome de folia e o desfile deste ano será em dois blocos. Diferentemente das épocas de oposição contra situação, presenciaremos nativos e estrangeiros na passarela da mamata, quis dizer, da ilusão.

A pergunta é se teremos condições de comandar a nossa terra ou se precisaremos da ingerência de terceiros.

O Amazonas é do seu povo ou continua sendo uma aldeia invadida?

Vai-se o tempo em que Mendonça Furtado governava o Grão-Pará. A nossa autonomia hoje nos dá direito de apresentar excelentes nomes, gente nova, outros experientes, para decidir o certo e o errado na capitania de São José.

Uma eleição no colo do caboclo Amazonino Mendes, cobiçada pelos curumins Marcelo Serafim, Wilker Barreto e Marcelo Ramos; o pajé Silas Câmara, o silêncio metafórico do caudilho Arthur Neto e, não esqueçamos, de David Almeida, o cacique em chefe.

Quem disse que ele vai querer deixar o cargo? A cadeira é macia, a caneta tem tinta, o jugo é leve, principalmente pajeado por Josué Neto, dinâmico, com experiência administrativa, excelente pedigree e muita juventude para queimar.

Tem tudo para ser uma eleição plebiscitária para o gestor atual. Fica ou sai. Pelo andar da carruagem, o “fica David” avança.

Entre os visitantes estão Luiz Castro, Eduardo Braga e o gaúcho José Ricardo, que poderá somar frente com Sinésio Campos, vizinho aqui do Pará, ou com Sassá da Construção Civil. Este tem mais cara da terra, mais bioma amazônico, representando a grande nação nordestina em meio aos barés.

A favor de Amazonino conta o tempo; contra ele, pesa o tempo.

Com sua larga experiência acumulada, seria a pessoa exata para esse turno, mas o Brasil é o único país do mundo que despreza a sabedoria de três mandatos de governador, três de prefeito e um estágio de senador, apesar de que a nossa expectativa de vida é baixa.

Aos Marcelos e ao restante da tribo, lhes são favoráveis um excelente conhecimento do território – furos e paranás -, o que é importante para quem está em guerra de domínios. São passados, e bem, no crivo das urnas, além da bendita expectativa de vida que, para alguns deles, é longa.

Os ventos conspiram em favor de David Almeida. Entretanto, o tempo lhe é desfavorável. Amazonino chegou primeiro ao convívio de Omar, Alfredo e Pauderney.

Ele é o caminho mais próximo para o retorno do senador ao governo e dos deputados federais ao Senado.

Porém, David se mostrou ágil, leve e interessado em resolver os problemas da grande maloca, apesar de não ter um partido seu, e ser obrigado a tolerar algumas maçadas, tem pegada.

A continuar assim não lhe faltarão votos no dia eleição. E quando se fala de um, o outro é mercadoria de altíssima liquidez.

Para o paulistano Luiz Castro soma a seu favor sua trajetória; já contra, o que temos é Marina Silva, antipatizada por boa parte dos tribais.

Para o visitante colonizador Zé Ricardo lhe pesa o fato de ser visitante e colonizador, não ter nenhuma identidade com a terra e não quer tê-la.

Representante da raça superior gaúcha, se considera fazendo um grande favor para os “leprosos” e “miseráveis” daqui, que têm a obrigação de elegê-lo para o bem do resto dos bugres. Tenha dó!

Falso moralista, Zé Ricardo devolve o auxílio paletó, mas não devolve o salário, as mordomias e a verba de gabinete; engana nas paróquias e prelazias se dizendo representante do clero e por isso a igreja católica está a excomungá-lo. Nefasto!

Assim, ele fatura seu mandato, em um podre e ridículo golpe de marketing, bem planejado para engabelar a ingenuidade remanescente.

O que pesa contra ele, além de ser antipático? Tudo, mais o fato de ser do PT, onde o fundador durante 25 anos pregou esse mesmo moralismo, resultando no maior esquema de corrupção da história do país.

Eduardo Braga é diferenciado, de Belém do Pará, tem toda a sua vida construída aqui desde a infância. Goza do respeito da taba, arranhado pela contemporaneidade dos fatos.

A seu favor está sua história, seu trabalho; contra, a sua personalidade forte, o tom elevado e a maior rejeição entre os demais.

É um realizador, pragmático, proativo e com muito trânsito, com imagens fortes e definitivas na mente do eleitor. Um homem movido pela vontade de fazer, que faz, mas nesse ímpeto residem algumas de suas contradições.

Estar no PMDB não lhe tira votos.

Por fim, a alma da mulher anunciada no título, a cunhã, por sinal poranga, Rebecca Garcia, símbolo máximo da beleza cabocla, da serenidade feminina e do fazer.

Pesa a favor de Rebecca a imagem e o sentimento que incorpora, a experiência administrativa, a ação parlamentar bem sucedida e a ascensão do ser feminino como sagrado na tribo.

E o que teríamos contra? Não é civilizado para um homem sensato falar de uma lady, principalmente na sua ausência.

Se não é cunhã de origem como Rebecca, a natalense Liliane Araújo porta traços de beleza e simpatia que podem lhe garantir uma boa visibilidade para o futuro político que se desenha brilhante.

Sua simpatia peculiar conquista facilmente o coração, e aliada ao talento da comunicação, Liliane pode se tornar uma grata surpresa nesse pleito de tiro curto.

O Amazonas tem sua saga construída pelas mãos de seu povo, pelo sangue dos seus bravos, a coragem de seus guerreiros, de quem nasceu para lutar em defesa do solo sagrado de sua terra.

Antes de querer transformar a eleição em uma guerra de etnias, meu desejo é conscientizar para os nossos valores autônomos e preservar o “a César o que é de César”.

Dispomos de um naipe sensacional de políticos consolidados e outros em crescimento, qualificadamente iguais, com sangue caboclo.

A decisão será a percepção diferenciada do eleitor.

Rebeca sorri, mas o David trabalha e tem pressa. Amazonino Mendes e Eduardo Braga constroem suas teias, espalham seus venenos letais; os outros sonham, mas todos lutam.

Será uma grande festa da democracia no país das amazonas, com os braços fortes do homem do mato, as ervas, os chás e alquimia da mulher da floresta.

Será a cura dos males da tribo com o conhecimento milenar de quem sempre soube morrer pelo que é seu…

Nessas questões de barrancos, a farinha da casa vale mais que o maná que vem de fora.