Por Maira Caleffi*

 

Tradicionalmente, no dia 8 de março, mulheres de todo o mundo são homenageadas com flores, doces e palavras carinhosas de seus colegas de trabalho, amigos e familiares – uma bem-vinda massagem em nossa autoestima.

Mas, não devemos esquecer que a data serve, também, para oferecer visibilidade às batalhas das mulheres por mais direitos em uma sociedade, infelizmente, ainda muito desigual, inclusive no que diz respeito ao acesso a serviços essenciais, como o atendimento à saúde.

Avançamos muito nas últimas décadas, mas o que constatamos em nosso trabalho cotidiano na Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama) é que o sistema de saúde, tanto público como privado (mas especialmente no âmbito do SUS), ainda não contempla todas as necessidades das pacientes.

Para discutir questões pertinentes ao acesso a tratamentos inovadores para mulheres com câncer de mama metastático na rede pública, por exemplo, a Femama convoca com suas ongs associadas uma série de debates em diversos estados brasileiros, sendo o primeiro no dia 8 de março no Rio Grande do Sul.

Essas audiências públicas darão continuidade aos eventos já realizados nos últimos anos, com o objetivo de debater o que mudou ou não em relação a políticas públicas de acesso a tratamentos para pacientes com câncer de mama metastático nos estados.

A dificuldade de conseguir tratamento é apenas um dos problemas enfrentados por essas mulheres. Os problemas já começam no acesso ao diagnóstico. Por exemplo: a OMS indica que 70% das mulheres com mais de 40 anos tenham acesso ao exame da mamografia anualmente.

No Brasil, porém, uma portaria de 2013 do Ministério da Saúde garante o exame apenas para mulheres com mais de 50 anos – e, mesmo entre elas, apenas 25% realizam o exame anualmente.

Isso significa que, das 10 milhões de mamografias que deveríamos ter realizado em 2014, apenas 2,5 milhões foram efetivamente realizadas, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Mastologia.

Neste dia de celebrar o feminino, mas de também dar visibilidade às lutas das mulheres, a Femama segue na batalha para ampliar o acesso ao diagnóstico: atualmente, lutamos para que o Congresso Nacional confirme a garantia legal do exame para mulheres a partir de 40 anos pelo SUS – hoje, os exames são garantidos apenas a mulheres a partir dos 50 anos.

Também lutamos pelo acesso ao tratamento, uma vez que hoje, para citar um exemplo, as pacientes brasileiras com câncer de mama metastático não têm disponíveis na rede pública de saúde os tratamentos mais modernos dos quais necessitam.

O resultado desse cenário é que, desde 8 de março de 2016, cerca de 14 mil mulheres morreram vítimas de câncer de mama, segundo as estimativas anuais do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

Se nossas lutas tiverem reconhecimento e apoio da sociedade e de nossos governantes, certamente o Dia Internacional da Mulher dos próximos anos poderá ser celebrado por mais mulheres, com mais qualidade de vida.

 

*A autora é presidente voluntária da Femama e chefe do Serviço Médico de Mastologia do hospital Moinhos de Vento