Por Thomaz Antônio Barbosa*

“Que pena, ela é tão bonita, nem ela mesmo acredita que ela tem tanto valor”

Trecho da música “Mulher difícil, homem gosta”, na voz de Abílio Farias (ouça abaixo)

 

Esses versos simples, carregados de repetições, nada mais são do que a mais bela expressão do sentimento coletivo do nosso povo. É um exemplar raro da música regional que se configura em um estilo que incorpora, em princípio, ritmos brasileiros de raízes bem profundas, com influências europeias, afros, latinas diversas e especificamente caribenhas.

Estamos falando de milonga, merengue, maxixe, valsa rancheira, guarânia, choro, samba-canção, xote e baião nordestino, entre muitos, sob a influência indígena, se transformando em uma autêntica música amazonense, representada por acordes básicos e improvisos primorosos, denotando sensualidade no bailar, nostalgia e graça em um formato de poesia cabocla, acompanhada por uma sonoridade extraordinária.

Executada normalmente em grupos, nas formações era vista sempre a presença de instrumentos de sopro, percussão e cordas. Em minha casa, no alto Juruá, meu pai ouvia Altamiro Carrilho, Luiz Gonzaga e Teixeirinha. Afagava seu cansaço com músicas de Dilermando Reis, de Zé do X, Abdias dos Oito Baixos, Vanusa, Altemar Dutra, Pixinguinha e Demônios da Garoa.

Versátil, nas décadas mais efusivas a música do Amazonas incorporou ritmos como a jovem guarda, a salsa e o bolero, por exemplo, junto ao uso de guitarras eletrônicas e sintetizadores. Ganhou uma forma especifica de tocar, cantar e dançar bem característica do amazonense. Encheu salões, casas, bailes e percorreu o estado e o país.

Essa farofa cultural acabou por formar uma música extremamente apreciável, gostosa de ouvir e dançar, de uma dramaticidade lírica impressionante e uma audição sublime.

Canta a vida do homem e seus dramas cotidianos, toca as suas emoções e é a que mexe no inconsciente coletivo da raça, que tem consistência e reflete exatamente a alma do caboclo.

A expressão surge nos rios Negro e Solimões e que significa, em língua geral, o nheengatu, nossa música.  É a que se tocava nas antigas “sedes” no interior, que se ouvia nos beiradões em rádio a pilha, nas emissoras AM, enfim, nos motores percorrendo os caminhos deste imenso Amazonas. Lembra?

Longe daquela coisa metida a culta que se tentou produzir a partir da década de 1980 por meio de uma malfadada MPA, feita por pessoas que não conheciam o Amazonas, tentando empurrar de cima para baixo uma miscelânea de plágios, horríveis – com poucas exceções -, que ninguém gostava, pois o caboclo não se via naquilo.

Música popular é espontânea e não tente mudar isso.  Quem ouvia “borimbora, maninha, que o recreio tá aí na beira” sabia que o autor dessa coisa não conhecia o Amazonas.

Onde já se ouviu dizer que “te levar para a cumeeira pra ouvir sapo coaxar” é coisa de amazonense?  A palavra coaxar não está no vocabulário ribeirinho, sobretudo da forma que a canção apresenta seus personagens.

Por outro lado, ninguém faz amor pendurado no cavalete do telhado das choupanas, se é que a intenção era essa. E olha que o caboclo é bem criativo nessas horas!

Sair por aí rimando jacaré com igarapé, matrinxã com tucumã e bodó com igapó, ou listando uma série de palavras e expressões, não significa música regional.

Ainda bem que essa coisa de “borimbora, maninha” não passou dos entornos da praça de São Sebastião, recanto da pseudointelectualidade manaó, e que certamente o ex-secretário de Cultura do estado levou consigo.

Oriundos dos tradicionais tocadores de festas – e aqui não é pejorativo, pois era assim que se falava -, comuns em todo o estado do Amazonas desde sua origem, os principais representantes da cuximauara  surgiram nas décadas de 1970 a 1990 e se consagraram em meio ao grande público, nas rádios e nas festas.

Assim podemos falar de Oseas e sua guitarra maravilhosa, Teixeira de Manaus, Cheiro-Verde, Chiquinho Davi, Nunes Filho, Grupo Carrapicho, Nino Gato, Antônio Marazona, Chico Caju, Abílio Farias e, porque não citar, Billy Marcelo e sua inseparável Tetê da Montanha misturando lambada e forró, além dos cantores das localidades e grupos indígenas.

Apesar do ostracismo nos meios de difusão musical, a cuximauara está bem viva na mente das pessoas e vai perdurar enquanto houver saudade e festa nesta terra.

Sua decadência se deu com a ascensão da rádio FM, mas ressurge agora com uma nova plasticidade por meio do advento das mídias sociais.

Quem já pode ver e ouvir Alaíde Negão sabe do que estou dizendo, quem acompanha os Tucumanus e o Cabocrioulo percebe que aqui tem algo novo na agulha.

Apesar das novas linguagens, o grupo Unidos do Som está tocando cada vez melhor, o Teixeira de Manaus fez sucessores, o Canaranas ainda embala festas no Solimões, e por aí vai o cancioneiro regional tocando a vida, fazendo histórias e amores, nessa mistura singular do velho com o novo que põe em ordem a autoestima da gente.

 

 

Fotomontagem com imagens do Mercado Livre/internet