“A nostalgia do ontem é que não me faz desistir do hoje e do amanhã”

 

Por Thomaz Antônio Barbosa

 

Em 31 de março de 1964 aconteceu no Brasil um episódio épico, até hoje ainda não bem explicado.

Foi o dia em que o verde-oliva não aceitou ser menor do que o vermelho de uma ilha da América Central, moralizou o país, mas que transformou bandido em herói e herói em bandido.

Os militares assumiram o poder central, a bandeira do partido era a mesma da pátria.

Vivi em um Brasil de inflação e violência imperceptíveis, mas de sonhos monstruosos, em um estado do tamanho e com o nome de uma das regiões mais importantes do planeta.

Um tempo em que era possível planejar a feira de amanhã, com base na de hoje, as compras do mês, as prestações do ano.

Como era bom cantar o hino nacional de manhãzinha na escola, como era prazeroso e motivo de orgulho hastear a bandeira do Brasil.

As aulas da professora Lourdinha no grupo escolar Maria Amélia do Espírito Santo nos nutria de um sentimento cívico, de brasilidade, de um país gigante que se tornaria a grande nação do futuro.

Mas a pátria não estava feliz, era hora de ir. O Brasil voltaria para um governo civil. A função militar é outra e até nisso eles foram sensatos.

Mesmo com a economia equilibrada, a violência controlada e o crescimento muito bem planejado, o regime passou a sofrer um linchamento sórdido dos intelectuais e da grande mídia nacional.

Veio a abertura política e já começa a euforia.

Acabou a inocência e chegamos ao dia de hoje sem esperanças e sonhos, mas deixamos de ser ingênuos, nem o mar, nem o peixe, agora quem nos leva é a ventania.

A pior coisa do regime militar foi mesmo a anistia no final.

Com ela retornaram os heróis nacionais tão sonhados, bostas como o Zé Dirceu; preciosidades como o Leonel Brizola; raridades como Gilberto Mestrinho e Fernando Henrique, por exemplo, desembarcaram sob flores e suspiros de uma pátria apaixonada.

Veio também o irmão Henfil e muita gente que partiu em um rabo de foguete e que não deveria ter voltado nunca mais.

Elegemos um governo com velhas raposas. O Brasil se tornou um caldeirão de disputas, de discórdias, de avanços e de retrocessos.

Fomos mandados para as linhas de montagem, para o chão de fábrica, para as barricadas, para o enfrentamento do que ainda do monstro tinha restado. O povo elegia e sustentava nossos algozes: a eles, tudo; à massa, somente as migalhas.

As ruas nos ensinaram que a salvação da lavoura seria o retorno dessas traças; que bossa nova era música brasileira, que Chico, Caetano e Gil eram cantores, intelectuais que nos representavam e defendiam.

Mentiram para nós. Gil e Caetano são dois golpistas que inventaram um autoexílio para poder voltar como heróis, alavancado suas carreiras já decadentes na época.

Chico Buarque é um usurpador de letras de música, filho da burguesia carioca, acostumado a comer caviar desde cedo, com espaço suficiente na mídia para se dizer líder das massas e lucrar com isso. Assim ele tem vivido, sugando o sangue e o bom senso das pessoas.

O sociólogo Herbert de Souza, depois de muitos anos em solo estrangeiro, de uma longa excursão pelas américas amigas, voltou para nos ensinar não a partilha de bens, mas sim a mendicância institucionalizada.

Em um país potente como o nosso, esse ser execrável acostumou o povo a pedir um quilinho disso ou daquilo, a viver a implorar migalhas!

Era o que ele tinha de melhor?  Que ficasse onde estava, no Chile ou Canadá!

Foram épocas de farsas colocadas como bravura, de canalhas endeusados como mitos, da transformação de canalhas em heróis, da vitória dos que não deveriam vencer.  O povo pagou toda essa conta e curtiu a ressaca.

Porém, as verdades foram sendo ditas e de repente fomos ficando adultos, com anos de asfalto e muitas solas gastas.

O que tem de palatável dos anos pós-anistia em política brasileira? O que é palpável acerca de crescimento econômico deste país?

Não foi sequer concretizada a Transamazônica, jamais fora iniciada a ferrovia Norte-Sul.

Mas, sangue corre na canela; a faca corta o pescoço; a bala fere o peito e a inflação, por sua vez, nos esvazia o bolso.

É uma pátria sem rumo, sem esperança, sem domínios. Passou rápido a época das euforias, desapareceram os delírios da pujança e nós nem envelhecemos ainda.

De concreto é que o Brasil de hoje, apesar de crescido, não é melhor do que o de ontem e o de amanhã, nesse compasso, será pior do que o de agora. A não ser que surja um novo foguete e em seu rabo caiba toda essa corja.

O governo civil perdeu a crítica consistente ao militar, perdeu o discurso da mudança, perdeu a compostura e nós não vamos perder um país à toa.

Os tempos gastos nas ruas, nos palanques, nos embates, nos faz falta, quem diria. Porém, foi isso que aprendemos, é a arma que temos.

O dia 31 de março de 1964 marca o início de uma mudança que ainda não se concretizou.

Nem os canhões, nem as bandeiras vermelhas. Agora é a vez dessa gente forte brasileira comandar os destinos do seu país.  Ainda temos sonhos, e tempo para realiza-los.

“… Começaria tudo outra vez, se preciso fosse meu amor!”