Por Wilson Nogueira *

 

A notícia de que os presídios brasileiros são controlados por grupos criminosos que subjugam os presos é de “tresontonte”.

Assim, os massacres de Manaus (AM) e Boa Vista (RR) são apenas, infelizmente, um desdobramento de uma tragédia com o mesmo perfil de vítimas: pobres condenados à marginalização social pela pobreza humana dos ricos e poderosos que mandam e desmandam no estado.

Nesse contexto, os comentários do presidente Michel Temer (PMDB) e do governador do Amazonas, José Melo (Pros), só confirmam a insensatez e o desdém das elites (políticas e econômicas, principalmente) com a “vida dos outros”.

Um “acidente pavoroso” (Temer) e/ou “não havia nenhum santo entre os mortos” (Melo) almeja tão somente naturalizar o estado de barbárie em que encontram, desde há muito tempo, as penitenciárias brasileiras.

As contradições que boiam a conta-gotas na imprensa embarcada no poder não esclarecem nada. Só confundem, porque, no mínimo, é essa a intenção dos gestores públicos (?) de plantão, para que, no esgotamento midiático do assunto, se consolide na opinião pública a versão de que os únicos culpados por essa matança sejam os presos em “guerra” entre si.

Temer e Melo, nas suas justificativas estapafúrdias, clamam a sociedade a entender o extermínio de presos como necessário e até mesmo justo. Afinal, quais demônios – ao menos os que povoam o imaginário da civilização judaico-cristã – não merecem a morte?

Temer e Melo, ao invés de enfrentarem o problema como uma questão de Estado, preferem jogá-lo nas costas do “crime organizado”.

Esquivando-se das suas responsabilidades, as elites legitimam a ação das organizações criminosas, cujas caudas entrelaçam o próprio Estado por intermédio de seus agentes corruptos: dos lambaris aos tubarões.

Com efeito, não são somente os presídios que estão abandonados ou sob influência das máfias. Parte significativa da sociedade também. Caso não fosse assim, os malfeitores e seus negócios não se expandiriam continuamente.

Seus “soldados”, por exemplo, são recrutados dentro e fora das cadeias, principalmente entre a população jovem pobre e não escolarizada. Gente de famílias desempregadas e/ou subempregadas sempre foi alvo fácil das associações criminosas, que envolvem pequenos ladrões, receptadores de furtos, assaltantes de bancos e financiadores de políticos inescrupulosos.

As mulinhas, os “corres” e os batedores de celulares, relógios, cordões etc., quando jogados nas cadeias, já estão amarrados a algum “chefão local” dessas “grifes” do crime.

As máfias chegam mais rapidamente às camadas sociais mais vulneráveis do que o aparato socioeconômico estatal, onde também se incrustam criminosos mais refinados, como os que roubam o dinheiro público que vai faltar às escolas, à alimentação, à saúde, à moradia e à segurança das populações pobres.

O problema, portanto, é mais complexo do que se possa imaginar; logo não há como solucioná-lo sem compreendê-lo em sua complexidade, sem deslindar a sua trama fio a fio, para que a realidade se apresente como ela é, ao invés de se esconder por trás de medidas paliativas e frases ingênuas, preconceituosas e/ou de má-fé.

Nem massacre de presos nem a construção de presídios resolverão essa crise, que não afeta, como está evidente, somente a população carcerária, mas a sociedade como um todo.

Gestores públicos (?) ou intelectuais fissurados no enjaulamento da chamada “escória social” só contribuem para a continuidade do problema, porque se recusam a pensar na existência de uma sociedade mais humana e justa – esse comportamento pode se efetivar por ingenuidade, ignorância ou por pura maldade mesmo.

Na outra ponta, a construção de creches, escolas, universidades e a implantação de programas de Estado, que articulem emprego e renda para os mais pobres, criariam uma perspectiva de bem viver, com o surgimento de uma sociedade afetada pela solidariedade, pela fraternidade e pela amorosidade, e não mais pelo bem-estar individualista e consumista.

Porém, isso é tudo o que não se vê prospectar ou se ouve falar neste momento de depreciação da vida humana. Esteja ela em liberdade ou encarcerada.

Corre célere, todavia, a versão de que os presos são vítimas de si mesmos e que consomem somas exorbitantes dos contribuintes, como se essa dinheirama chegasse, realmente, às penitenciárias. Está mais claro, por conta da crise do momento, que parte substancial desse dinheiro público é desviada pelas “máfias” infiltradas na estrutura do próprio Estado.

Máfias cujos chefões se misturam com desenvoltura nos ambientes mais insuspeitos possíveis, como naqueles em que umanizarre parece ser a palavra final.

Isso não é um acidente pavoroso! É a política da desigualdade imposta pelas elites dominantes em plena realização.

 

* O autor é jornalista

 

Foto: Reprodução/Reuters_Terra