Por Thomaz Antonio Barbosa*

 

A disputa pelo território palestino vai além da criação do Estado de Israel. A cidade de Jerusalém é para os judeus a terra prometida por Deus ao patriarca Abrão e sua descendência; também é reivindicada pelos cristãos por ser o lugar de nascimento, atuação e morte de Jesus Cristo; já os muçulmanos ligam a Terra Santa a uma interpretação de um trecho do Alcorão, o que lhes deu o direito de construir a mesquita Al-Aqsa e a Cúpula da Rocha, dando início a partir de então a uma pendenga interminável, envolvendo dois povos, as religiões abraâmicas e seus seguidores ao redor do mundo.

Depois da invasão de Canaã, Josué encampou uma verdadeira devassa contra os cananeus que lá estavam.  Exatamente, a terra prometida tinha dono, um povo politeísta que deveria ser massacrado, e foi. Os israelitas, ainda não satisfeitos, também conquistaram o reino de Jericó, um absurdo, mas que seria fichinha diante do que viria.

No ano de 638, o califa Omar Al-Khattab, azeitado pela expansão do islamismo, ocupa, sem derramar uma gota de sangue, a abandonada Jerusalém, discorrendo, segundo consta, uma implacável perseguição aos cristãos remanescentes e aos peregrinos que se aventuravam ir à Terra Santa.

Nesse período conturbado aconteceu a invasão turca, a derrubada da igreja do Santo Sepulcro e a construção da mesquita de Al-Aqsa, considerada pelos cristãos um artifício para justificar, de fato e definitivamente, a presença dos muçulmanos na Terra Santa.

Em resposta, o papa Urbano II, no ano de 1096, organizou um movimento para a retomada da cidade sagrada, ao que chamaram de guerra santa, conhecido contemporaneamente como as cruzadas religiosas.  Com o apoio dos nobres europeus e dos senhores feudais, o cerco a Jerusalém ocorreu em 1099, culminando com a derrota do califado Fatímida e a vitória dos cruzadistas cristãos.

Foi estabelecido o Reino Latino de Jerusalém que permaneceria por mais de cem anos. Porém, no ano de 1187, liderados pelo sultão Saladino, os muçulmanos, na batalha de Hattin, reconquistaram a Terra Santa impondo uma derrota fragorosa aos cristãos.

Outros confrontos aconteceram e serviram unicamente para desgastar a relação do ocidente com o oriente e atenuar o conflito religioso na região.

Há um salto na história, mas não o silêncio. Em 1948, a Organização das Nações Unidas reconhece o Estado de Israel como país em território palestino fortalecido pelas ideias sionistas, um movimento que pregava o retorno dos judeus para a terra prometida e lá formarem uma nação moderna e ocidentalizada, onde existiu o potente Reino de Israel.

A título de informação, o termo sionista foi utilizado pela primeira vez em 1892 por Nathan Birnbaum, depois se tornou de uso corrente do também escritor Theodor Herzi, considerado o pai do sionismo, autor do livro “O Estado Judeu”, de 1896.  A palavra faz uma alusão ao monte Sião, uma das colinas que cercam Jerusalém.

Outro acontecimento marcante que antecedeu e contribuiu para a criação do Estado de Israel foi o chamado Mandato Britânico da Palestina, de 1920 a 1948, uma comissão de administração de todo o território palestino.

Também foi determinante nesse processo o crescimento do nazifascismo e do antessemitismo na Europa, o que obrigou os judeus a voltaram a povoar a Terra Prometida.

Com a chegada dos primeiros israelitas na Palestina começou a tensão dos dois lados, impulsionada pela radicalização dos sionistas em contraposição ao nacionalismo muçulmano que absorveu as ideias nazifascistas e antissemitas, sobretudo os pressupostos antiocidentais da Irmandade Muçulmana. E o que seria isso?

Nada mais do que uma organização radical islâmica fundada em 1928 por Hassan Al Banna, que luta para estabelecer as leis do islamismo como base dos governos.

Qualquer semelhança com o fundamentalismo de agora, que deu origem a grupos como a Al-Qaeda, o Hamas e o Estado Islâmico é mera coincidência.

A Palestina, então, passa a contestar a presença dos judeus em seu território e a promover ataques às instalações judaicas; o outro lado reage.

Enfim, em 1948 a ONU reconheceu Israel como nação, de fato, que em pouco tempo se tornaria uma potência econômica e militar no Oriente, mas com bases ocidentais bem firmadas.

Voltemos ao califa Omar, a invasão de Jerusalém e a derrubada da capela do Santo Sepulcro. Donald Trump, com uma cartilha medieval embaixo do braço, durante a sua campanha eleitoral, desviou os olhares do mundo para o México; porém, no primeiro mês de governo pôs em prática o que os norte-americanos têm chamado de ofensiva contra o terrorismo.

Ele atacou o Iêmen, fechou os Estados Unidos para muçulmanos, promoveu embargos, visitou aliados no mundo árabe – recebeu as garantias que precisava – e agora planta o segundo pilar do que pode ser considerada uma nova cruzada contra os discípulos de Maomé na Terra Santa: um processo lento e gradual de retomada de Jerusalém para o Ocidente desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Nesse baralho milenar podemos destacar que a romanização do cristianismo talvez tenha sido a maior estupidez da face da terra do ponto de vista geográfico. E pode?

Saulo de Tarso, um general romano sedento por poder e dinheiro se converte à mensagem do Messias e transforma o judaísmo reformista no mais absurdo e famigerado capitalismo europeu. Estava criada a igreja de Roma.

A migração do cristianismo para a Europa é o vetor que possibilita o surgimento de um novo profeta na figura de Mohamed e com ele uma nova concepção religiosa.

O mundo árabe que não se via na imagem de um Messias romanizado passa a se enxergar na pessoa de um mercador que, como Moisés, recebe de um Anjo do Senhor a mensagem a ser passada aos seus iguais. Assim surge o Islã.

Maomé une o mundo árabe, as tribos nômades desprezadas por Roma e traz uma resposta mais objetiva aos anseios daquele povo, calcada na sua cultura, na economia e costumes.

A mensagem do Profeta é direta e compreensível, em detrimento à subjetividade e às contradições do cristianismo. A expansão do islamismo, portanto, foi acachapante.

Picuinhas à parte, ainda nesse berço de contradições e absurdos, há quem diga que as justificativas para a ocupação de Jerusalém pelo califa Omar Al-Kathab e sua transformação em uma cidade islâmica são tão contestáveis quanto a conversão de Saulo de Tarso, pois Maomé não faz nenhuma alusão direta à Jerusalém, preservando a cidade aos cristãos.

Entretanto, o califa encontra na interpretação de um trecho do Alcorão uma brecha para justificar a ligação de Jerusalém ao Islã.

Com o deslocamento do eixo do cristianismo para a Europa se tornava praticamente impossível contestar ou conter os seguidores do islamismo.

Dessa forma se justifica a conquista da cidade sem derramamento de sangue, sem resistências, claro.

Segundo o Alcorão, Maomé realizou uma viagem noturna entre o lugar onde está a Mesquita Sagrada, notadamente Meca, até o ponto mais distante, em árabe Al-Aqsa, o que seria para os seus seguidores a cidade de Jerusalém. O percurso foi feito montado em um animal alado, branco, metade mula, metade cavalo.

Porém, o livro sagrado do Islã não dá nenhuma referência de onde estaria localizado o lugar distante, de onde o profeta teria subido aos céus por meio de uma escada milagrosa.  Quase um século após foi construída a mesquita de Al-Aqsa na Terra Santa.

Não percamos de vista que essa história começa com a invasão de Canaã, atendendo a uma ordem expressa de Deus a Moisés, para retirar o povo hebreu da escravidão no Egito e o conduzir à terra prometida a Abraão, lugar que se transformaria em palco de intensas lutas intertribais, de disputa religiosa acirrada e que em meados do século XX recebe um ingrediente novo e intragável, a adesão das grandes potências mundiais.

Seria temerário ponderar o que há de certo e de errado por trás das cortinas de fumaça que cercam o conflito. Na arte e na guerra o significado nunca está no aparente.

De concreto é que para as três religiões Deus é único, azar dos cananeus. Apesar de comungarem desse princípio, a Palestina está coberta de chamas e Jerusalém de sangue, no que poderia ser uma nova cruzada do Ocidente contra o Oriente por meio de Israel.

É um absurdo em épocas modernas, de tratados e convenções internacionais, onde o diálogo deveria mandar no dinheiro, levar adiante o ruído de comunicação de Abraão a Moisés; dos discípulos de Maomé, que a misericórdia de Deus esteja com ele, e dos seguidores de Jesus Cristo, que para sempre seja louvado o seu Santo Nome.

Oremos!

Feliz Natal!

 

*O autor é contador, formado em ciências contábeis pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), MBA em marketing pela Universidade Gama Filho e mestrando em ciências empresariais na UFP/Porto, em Portugal.