Por Thomaz Antonio Barbosa

 

“Mas, é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”

 

A indicação de Denílson Novo para comandar a cultura do Amazonas caiu como uma luva nas redes sociais. A possibilidade da redenção da nossa erudição por um novo olhar é música para os ouvidos. E se isso não for possível, a queda do Robério vale o ingresso.

Por esse ato, Amazonino coroa uma campanha eleitoral baseada em um personagem doce, experiente, renovador. E ele fez, acabando com a vitaliciedade de um indivíduo arrogante e ultrapassado.

De fato, uma secretaria de estado não poderia permanecer a serviço do culto ao ego do gestor. O festival de música do Amazonas na última semana é prova viva e cabal de que aquele modelo não deveria mais prosseguir.

Durante anos vem se tentando fazer um conceito de cultura popular representado na música, na poesia, na literatura e no teatro, por músicos que não são músicos; poetas que não são poetas; escritores que não são escritores e atores que não os são; que não se enquadra na linguagem do caboclo, nem no seu modo de vida.

Então, que raio de cultura é essa que não representa o viver do grupo social onde está inserida?

Poderia ser a da extorsão ao erário público, do projetinho para favorecer a corja que tem se locupletado país a fora desses benefícios de seus pares, certamente.

Esse tipo de prática, em nome do culto à autoimagem do gestor, tem contribuído diretamente para o confinamento das nossas melhores expressões ao limite de seres invisíveis no panorama geral brasileiro.

A Disneylândia não é aqui, e mesmo que fosse seria sob a pirotecnia de Tupã e não de Mickey Mouse, aos acordes febris de Oséas e sua guitarra maravilhosa. Que me perdoe Beethoven, mas a massa que paga tributos prefere o Teixeira de Manaus.

Como diria o velho comunista: “Tudo que é sólido e desmancha no ar”. Pois é, Robério se foi sem deixar saudade, presume-se.

É preciso que se fale a língua do povo e que surjam outras linguagens. O legado deixado por aquele gestor é a extensão do quintal da casa do senhor comendador meu pai.

Nada além da praça de São Sebastião e do bar do Armando, este lugar que mais concentra pseudointelectuais, imbecilizados, por metro quadrado em todo o estado.

É urgente que se perceba o que diz a periferia, por exemplo – que hoje manda no Brasil –, os beiradões, e sair do cartorialismo provinciano, rodeado na pracinha da infância em que vivi, brincando na trilha do bonde com titia solteirona ou a concubina de vovô.

E quando digo que o criador é maior que a criatura, coube a Amazonino rever as distorções de sua carreira, vencer o Braga e recomeçar um processo de renovação daquilo que ele criou.

Não seria outro, senão ele, a tirar cartas da manga, oferecer oportunidades a novos agentes, redimensionar a pluralidade das expressões regionais que o Celdo insiste em esconder embaixo de suas poesias escrotas e do seu repertório enfadonho que não contribuem senão para elevar ao nível da mais alta mendicância a alma culta e bela do caboclo.

No último final de semana aconteceu o famigerado festival de música do Amazonas, no Teatro Amazonas. Sim, lá mesmo, para a família dos artistas ver e presentear os vassalos do rei.

Após a última apresentação, é página virada. O que fica é a gratidão dos participantes pela benevolência do senhor barão em dar oportunidade a um pobre e humilde artista de mostrar para ninguém o seu trabalho, faturar alguns níqueis, custear as despesas e manter o círculo vicioso.

Não que seja depreciativo cantar para a lua, mas ficar vinte e tantos anos fazendo isso até ela se cansa.

Em Denílson vemos representada a possibilidade de uma leitura mais atualizada daquilo que somos e do que poderíamos, diante dessa loucura delirante, processo contínuo e difuso da metamorfose cotidiana.

Desde ontem que o Amazonas necessita se expressar em todas as suas vertentes, sair do estigma do índio que canta e realiza festivais para turista satisfazer seus desejos obscenos.

Desde anteontem que a promoção cultural daqui redunda no próprio umbigo, nos deleites do secretário e dos promotores daquilo que eles convencionaram chamar de cultura regional.

É um absurdo o povo pagar essa conta e ficar na janela vendo o rio passar. Andamos para trás durante muito tempo. Porém, nada está perdido. O sentimento é o mesmo, a postura é nova e mais dinâmica, acreditemo-nos.

E se acaso alguém lhe perguntar o que é cuximauara, diga que no próximo artigo eu explico.

 

… Depois de engarrafado o vinho, somente o rótulo envelhece. Amazonino Mendes continua sendo o político amazonense com a maior facilidade de criar novos personagens e de se manter vivo…

 

Saúde!